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Violência contra a educação
Jorge Werthein

O problema está ficando cada vez mais evidente. Talvez porque a percepção sobre ele esteja adquirindo a mesma dimensão da realidade. A violência nas escolas preocupa mais os brasileiros, hoje, do que a má qualidade do ensino ou os salários dos professores. Os resultados da pesquisa do Ibope em parceria com o movimento Todos pela Educação, divulgados em março último, demonstram-no claramente. Segundo o estudo, insegurança e drogas nas escolas são os maiores problemas da educação brasileira, seguidos de falta de motivação associada ao excesso de trabalho dos professores e, em terceiro, a baixa qualidade do ensino.

Ao indagar a mais de 2 mil pessoas qual seria o maior problema da educação brasileira, o Ibope registrou que, para 50% dos entrevistados, é a falta de segurança e uso de drogas nas escolas.
Cabe observar que essa preocupação aparece tanto nas classes sociais com renda familiar entre cinco e 10 salários mínimos (56% dos entrevistados desse segmento apontaram o problema como o principal) quanto nas classes financeiramente mais abastadas (46% disseram o mesmo). O ministro da Educação, Fernando Hadad, demonstra ter consciência de que esse problema contribui para a compreensão dos outros dois problemas mais apontados na pesquisa. Em entrevista à imprensa, o ministro afirmou, com todas as letras, que “quando você não tem um ambiente de paz, um ambiente próprio para o aprendizado, isso dificulta a relação ensino-aprendizagem, dificulta o trabalho do professor e, por desdobramento natural, também o desempenho dos estudantes”.

A correta avaliação do ministro permite uma série de reflexões. A primeira, mais evidente, diz respeito ao fato de que a violência nas escolas é uma questão transversal, isto é, perpassa outros âmbitos da relação ensino-aprendizagem. Estudantes e professores inseguros apresentam rendimento inferior ao desejável. Estudantes com baixo rendimento tendem a perder o interesse pela escola. Essa perda de interesse, por sua vez, leva ao abandono, ao absenteísmo, ao descuido com o patrimônio material da instituição escolar. Desmotivados, estudantes e educadores buscam outros tipos de satisfação, geralmente fora da escola. No caso dos estudantes, há o risco mesmo do trabalho precoce ou do abandono dos estudos. Para os professores, muitas vezes a saída está em carreiras fora do magistério, quando desistem de lutar contra o esgotamento nervoso gerado nas salas de aula.

Tal quadro exige do governo e da sociedade ação enérgica, fundamentada em políticas públicas de longo prazo, que contemplem claramente o problema. É pouco frequente, tanto no meio acadêmico quanto no setor público, o foco nessa questão. O governo do Distrito Federal destaca-se ao desenvolver iniciativas nesse sentido. Estudos anteriores da Unesco e, agora, a pesquisa Ibope/Todos pela Educação demonstram a relevância e a urgência de se lançarem luzes sobre o problema. Tal ênfase implicará investimento substancial na formação e capacitação dos professores. Para um contexto novo, os educadores necessitam de instrumental igualmente novo, como a técnica da mediação escolar, para ficar em um exemplo. Velhos métodos de repressão já não funcionam — se é que funcionaram um dia.

A solução passa, em primeiro lugar, pelo conhecimento aprofundado do problema. O Brasil ainda conhece mal a realidade de suas escolas.
Embora os meios noticiosos de comunicação venham abastecendo a sociedade com farta informação sobre episódios de violência nos estabelecimentos de ensino do país, o debate evoluiu pouco.

Assiste-se, amiúde, a mesas redondas e entrevistas sobre comércio e uso abusivo de drogas, a atuação da polícia, as consequências da violência do tráfico de entorpecentes etc. Mas pouco se discute, ainda, a microviolência cotidiana dentro das escolas do país.
Curiosamente, situação semelhante parece ocorrer também em países industrialmente mais desenvolvidos, como Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e Espanha, para ficar em alguns. Isso demonstra ainda mais a urgência do debate, uma vez que não há soluções prontas a importar.

Cumpre realizar diagnóstico o mais abrangente possível da situação das escolas brasileiras de modo a conhecer o problema e a deflagrar o debate público para a busca de soluções de curto, médio e longo prazo.

O debate, por seu turno, permitiria amplos conhecimentos e reconhecimentos de recomendações já existentes em diversos trabalhos sobre o tema, além do treinamento adequado de professores e da orientação apropriada aos estudantes. Todo esse processo, evidentemente, só teria êxito com a participação efetiva das famílias, dos educadores, dos estudantes, dos estudiosos do tema, dos formuladores, implementadores e fiscalizadores de políticas, enfim, de todos os segmentos sociais envolvidos direta ou indiretamente na educação.

Essa força-tarefa certamente cumpriria o papel ao qual jamais poderia ter-se furtado, qual seja o de pensar a educação de forma transversal, trans e multidisciplinar, holística enfim. Se não se efetuar tal empenho, corre-se o risco de, nos próximos 10, 20 anos, outra pesquisa apontar o agravamento do quadro atual. Basta olhar para trás, observar o presente para se temer o futuro. A menos que arregacemos as mangas imediatamente.

Jorge Werthein é Diretor Executivo
Da RITLA
Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana Red de Información Tecnológica Latinoamericana
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